07 de novembro, 22:00
Local
sereias
em “o país a arder” (2018), o fogo e as chamas eram metáforas de um país à beira da combustão social e política. em “sereias” (2022), o grupo afirmava uma identidade estética e discursiva, consolidando uma linguagem própria entre o (sub)campo português do (pós)rock experimental, alternativo e interventivo. agora, com o disco “a odisseia de carlos bizarro” (2026), sereias insistem na urgência da criação artístico-musical enquanto gesto político-poético que nos lembra que, mesmo em tempos distópicos, narrar este mundo de caos, de desigualdade, de crueldade é um ato profundamente político.
tal como as sereias que habitavam margens e zonas de perigo dos caudais, este álbum posiciona-se num território liminar. este é um disco sobre o escutar e sobre igualmente o risco de o fazer.
carlos bizarro, enquanto figura errante e deambulante, surge quase como um anti-herói que caminha por paisagens reconhecíveis da precariedade, do desencanto e do antilogismo. nessa senda, a sua odisseia vivencial não é épica num sentido arcaico, mas antes profundamente contemporânea. esta pessoa vive num mundo feito de promessas de um futuro que é constantemente adiado – e nunca como hoje este é o quotidiano de uma grande parte da sociedade. assim, a distopia não é um cenário longínquo, mas antes uma condição instalada: um modo de vida. o colapso do mundo já aconteceu, nós é que não o queremos ver. e pior: queremos normalizar esse colapso.





